HOMENAGEM: ZUZU ANGEL COMPLETARIA 92 ANOS E GANHA EXPOSIÇÃO EM EVENTO DE MODA

A estilista Zuzu Angel (imagem: reprodução)
A estilista Zuzu Angel (imagem: reprodução)

Na última semana, se estivesse viva, Zuzu Angel (Curvelo, 5 de junho de 1921 — Rio de Janeiro, 14 de abril de 1976) completaria 92 anos. A estilista brasileira foi mãe do militante político Stuart Angel Jones e da jornalista Hildegard Angel. Até hoje, essa mineira natural de Curvelo até hoje, ainda é considerada uma das maiores identidades da moda brasileira, como ela mesmo dizia. “Eu sou a moda brasileira”.

Moda brasileira

Criações da estilista em 1972 (imagem: reprodução)
Criações da estilista em 1972 (imagem: reprodução)

Nascida em Curvelo, Minas Gerais, mudou-se quando criança para Belo Horizonte, onde começou a costurar e criar modelos, fazendo roupas para as primas, mudando-se depois para a Bahia, onde passou a juventude. A cultura e cores desse estado influenciaram significativamente o estilo das suas criações. Pioneira na moda brasileira, fez sucesso com seu estilo em todo o mundo, principalmente nos Estados Unidos.

Em 1947, foi morar na cidade do Rio de Janeiro e nos anos 50 iniciou seu trabalho como costureira, quando fazia roupas principalmente para alguns familiares próximos. No princípio dos anos 70, após muitos anos de costura e investindo um dinheiro que teve que juntar a vida toda, abriu uma loja de roupas em Ipanema.

Seu estilo misturava renda, seda, fitas e chitas com temas regionais e do folclore, com estampados de pássaros, borboletas e papagaios. Zuzu também trouxe para a moda as pedras brasileiras, fragmentos de bambu, de madeira e conchas.

A estilista usava elemento muito brasileiros em suas criações (imagem: reprodução)
A estilista usava elemento muito brasileiros em suas criações (imagem: reprodução)

Trabalhando muito, com o tempo fez algumas amizades importantes no bairro e com uma clientela rica e bem intencionada, que reconheciam seu trabalho teve a oportunidade de expandir seus negócios e começou a realizar desfiles de moda nos EUA. Nestes desfiles, sempre abordou a alegria e riqueza de cores da cultura brasileira, fazendo sucesso no universo da moda daquela época. Suas roupas eram bem costuradas e muito coloridas, pois ela passou a, além de costurar, desenhá-las e pintá-las. O anjo, de seu sobrenome, passou a ser uma das marcas registradas de suas criações. “Eu não tenho coragem, coragem tinha meu filho. Eu tenho legitimidade”.

Nessa época de desfiles no exterior, Zuzu conheceu o americano Norman Jones, com quem iniciou um relacionamento amoroso. Após alguns anos juntos, voltaram para o Rio de Janeiro e se casaram, mudando-se depois para Salvador, onde ela morou muitos anos. Lá, Zuzu engravidou e deu à luz seu filho, chamado Stuart Edgar.

Confronto com a ditadura

Na virada dos anos 60 para os anos 70, Stuart Jones, estudante de economia, passou a integrar as organizações que combatiam a ditadura militar instalada no país desde 1964, filiando-se ao MR-8, grupo guerrilheiro de ideologia socialista do Rio de Janeiro. Preso em 14 de abril de 1971, Stuart foi torturado e morto pelo Centro de Informações da Aeronáutica (CISA) no aeroporto do Galeão e dado como desaparecido pelas autoridades.

A partir daí, a estilista entraria em uma guerra contra o regime pela recuperação do corpo de seu filho, envolvendo os Estados Unidos, país de seu ex-marido e pai de Stuart. Como estilista, ela criou uma coleção estampada com manchas vermelhas, pássaros engaiolados e motivos bélicos. O anjo, ferido e amordaçado em suas estampas, tornou-se também o símbolo do filho. Zuzu chegou a realizar, também em Nova York, um desfile-protesto, realizado no consulado do Brasil na cidade.

Com sua relativa notoriedade internacional, ela envolveu celebridades de Hollywood que eram suas clientes, como Joan Crawford, Liza Minelli e Kim Novak, em sua causa,5 e durante a visita de Henry Kissinger, então secretário de estado norte-americano, ao Brasil, em 1976, chegou a furar a segurança para entregar-lhe um dossiê com os fatos sobre a morte do filho, também portador da cidadania americana.4 Um ano antes já havia feito a mesma coisa, entregando um dossiê escrito em inglês à esposa do general Mark Clark, comandante das tropas aliadas no front italiano durante a II Guerra Mundial, que estava em visita ao Brasil, no Hotel Sheraton, em São Conrado, Rio de Janeiro, para que entregasse ao marido.6 Com um destemor que beirava a temeridade, certa vez tomou da mão de uma aeromoça o microfone de bordo de um voo para anunciar aos passageiros “que desceriam no Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro, Brasil, país onde se torturavam e matavam jovens estudantes’.

Foram anos em busca do corpo do filho, sem poder dar-lhe um enterro, pois o corpo de Stuart nunca foi encontrado e consta como desaparecido político brasileiro.7 Mesmo depois de Stuart morto, o governo militar espalhava cartazes com o rosto de Stuart e o rótulo “Procurado”.

Morte

A busca de Zuzu pelas explicações, pelos culpados e pelo corpo do filho só terminou com sua morte, ocorrida na madrugada de 14 de abril de 1976, num acidente de carro na Estrada da Gávea, à saída do Túnel Dois Irmãos (Estrada Lagoa-Barra), Rio de Janeiro, hoje batizado com seu nome. O carro dirigido por ela, um Karmann Ghia, derrapou na saída do túnel e saiu da pista, chocou-se contra a mureta de proteção, capotando e caindo na estrada abaixo, matando-a instantaneamente.

Uma semana antes do acidente, Zuzu deixara na casa de Chico Buarque de Hollanda um documento que deveria ser publicado caso algo lhe acontecesse, em que escreveu: “Se eu aparecer morta, por acidente ou outro meio, terá sido obra dos assassinos do meu amado filho”.

Em 1998, a Comissão Especial dos Desaparecidos Políticos julgou o caso sob número de processo 237/96 e reconheceu o regime militar como responsável pela morte da estilista.

Em 2013, a organização independente Wikileaks vazou um documento do governo norte-americano datado de 10 de maio de 1976, que comentava a morte de Zuzu num desastre automobilístico e mostrava preocupação com o fato e sua repercussão no Brasil e no exterior, atentando que, embora tudo parecesse ser um simples acidente, a hipótese de ter sido um assassinato não podia ser descartada.

Um marco na cultura popular

Depois de sua morte, Zuzu foi homenageada em livros, música e filme. O mesmo Chico Buarque compôs, sobre melodia de Miltinho (MPB4), a música Angélica, em 1977, em homenagem à estilista.11 Em 1988, o escritor José Louzeiro escreveu o romance “Em carne viva”, com personagens e situações que lembram o drama de Zuzu Angel.

Em 1993, a filha de Zuzu, a jornalista Hildegard Angel, criou o Instituto Zuzu Angel de Moda do Rio de Janeiro, em memória da mãe. Em 2002, o estilista mineiro, Ronaldo Fraga desfilou no SPFW uma coleção chamada “Quem matou Zuzu Angel”.

Coleção "Quem matou Zuzu Angel", de Ronaldo Fraga
Coleção “Quem matou Zuzu Angel”, de Ronaldo Fraga

Em 2006, o cineasta Sérgio Rezende dirigiu Zuzu Angel, filme que retrata a vida da estilista, protagonizada por Patrícia Pillar e com Daniel de Oliveira, Luana Piovani, Paulo Betti, Juca de Oliveira e Elke Maravilha, entre outros, no elenco.

Cena do filme Zuzu Angel, com Luana Piovanni e Patricia Pillar
Cena do filme Zuzu Angel, com Luana Piovanni e Patricia Pillar

Este ano, a estilista será a grande homenageada no evento Paraty EcoFashion, com a exposição “Eu sou a moda brasileira”, no dia 26 de setembro, as presenças de Hildegard Angel, Celina de  Farias e João Braga.

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