ESPECIAL FOTOGRAFIA: ANNIE LEIBOVITZ A FANTÁSTICA RETRATISTA QUE SE ESPECIALIZOU EM GRANDES CELEBRIDADES

A fotógrafa
A fotógrafa

Continuando a nossa série de grandes nomes da fotografia, hoje, iremos apresentar a retratista-fantástica Anna-Lou (Annie) Leibovitz. A americana é uma das maiores, ou a maior, retratista de celebridades, tem uma séria de clicks inspirados nos contos da Disney que são grandes obras de arte. Publicou seis livros de fotografias e assumiu uma relação com a escritora Susan Sontag, de quem esteve sempre próxima nos últimos anos de vida.

O making of da transformação de Queen Latifah em Ursula, a vila de A Pequena Sereia
O making of da transformação de Queen Latifah em Ursula, a vila de A Pequena Sereia
O resultado...
O resultado…

“Os fotógrafos vivem uma longa vida e trabalham até ao fim.” A frase de Annie Leibovitz mostra a garra e a vontade dessa grande retratista de descobrir o mundo, ou criar um novo mundo por suas lentes.A famosa fotógrafa norte-americana, que se tornou célebre na produção de imagens ícones do universo das estrelas, com 60 anos, jamais poderá deixar de trabalhar.

A fotógrafa – mãe tardia de três filhos, a primeira por inseminação artificial e as gémeas por barriga de aluguer e que confessou estar neste momento mais virada para a família – encontra-se agora nas mãos do grupo de investimento, que passará a gerir o seu talento e o seu tempo. Assim, a fotógrafa, estrela entre as estrelas do mais poderoso star system do planeta, converteu-se num produto de si mesma. Mais do que nunca, ela é, irremediavelmente, a sua marca comercial.

Se o percurso de vida de um fazedor de imagens se pode confundir com o registo da sua máquina, em Leibovitz esta prática foi levada ao extremo. “O que é a vida de um fotógrafo senão uma vida através das lentes?”, interrogava ela, ao volante de um carro em movimento, na abertura do documentário biográfico “A vida através das lentes”, realizado para acompanhar a exposição internacional “Annie Leibovitz: A Photographer’s Life (1990-2005)”, patrocinada pela American Express.

Uma das fotos da campanha da American Express clicadas por Annie
Uma das fotos da campanha da American Express clicadas por Annie

Na ocasião também foi lançado um livro com o mesmo título, editado pela Random House para esta retrospectiva itinerante que partiu do Brooklyn Museum, de Nova Iorque (2006) para o mundo. A publicação conta com mais de 200 fotografias escolhidas para representar a obra de Annie Leibovitz, nada foi excluído do auto-retrato que ela quis projetar sobre si.

No documentário dois pólos que se distinguem: trabalho e família. Ambos nos revelam um trajeto construído através de uma narrativa filtrada pela câmara. Entre os corpos emblemáticos das estrelas de Hollywood e na galeria dos retratos do poder celebrizados por Leibovitz, o núcleo da família – que inclui pais, irmãos, sobrinhos e filhos – é atravessado por um tempo afetivo onde a escritora Susan Sontag, a companheira dos últimos anos, é figura de proa. As viagens das duas, os retratos da intimidade, a gravidez e, a doença e a morte de Sontag (dezembro de 2004).

A câmara por companhia

A máquina fotográfica é objeto muito antigo na vida de Annie Leibovitz. Na biografia que nos conta, explica como a mãe, de máquina Super 8 na mão, andava sempre a filmar a numerosa família, que se deslocava em permanente movimento pela América: “Estávamos tão habituados à câmara que achávamos que era mais um membro da família”, diz-nos ela. O pai, militar da Força Aérea, andava de base em base, acompanhado pela família, que o segue dentro do automóvel. Annie explica como o carro era o modo de vida dos Leibovitz, a ponto de afirmar que “quando se cresce assim é fácil tornar-se artista, pois o mundo é apreendido através de uma janela como se fosse uma sequência de fotogramas”. É a América mitológica e da cultura on the road que surge na sua narrativa da infância, preparando já o caminho para o tempo que virá a seguir.

No final da adolescência, Annie Leibovitz entra no Art Institute de São Francisco com o objetivo de se tornar professora de arte. Tem aulas de fotografia, toma contacto com Robert Frank e Cartier-Bresson e aprende, segundo diz, que “a câmara é uma espécie de licença para viajar e conhecer mundo”. No início da sua carreira, Leibovitz, cidadã de São Francisco, começa a trabalhar para a “Rolling Stone”, a famosa revista de música, poderoso veículo da cultura emergente das pop stars. Durante toda a década de 70, ela está no centro deste universo.

Da Rolling Stone à Vanity Fair

Uma das fotos da turnê dos Stones que Annie acompanhou
Uma das fotos da turnê dos Stones que Annie acompanhou

O fundador da revista Rolling Stones, Jann Wenner, conta como Annie passava dias em reportagem, submergindo-se no ambiente dos músicos como se fosse insider. É nesse espírito que aceita ser a fotógrafa oficial da primeira grande tournée internacional dos Rolling Stones. Durante meses, acompanha os músicos na estrada e revela ao mundo fotografias de uma intimidade única da famosíssima banda. Pela primeira vez, é mostrada uma imagem de dentro do palco enquanto decorre um espectáculo. O envolvimento com a trupe de Mike Jagger leva-a mais tarde a confessar: “Não sabia no que me estava a meter. Fui incrivelmente ingénua ao pegar naquele grupo de homens e decidir que queria fazer parte.” Só acabará por se livrar das drogas alguns anos depois, num centro de reabilitação.

Uma de suas capas para a Vanity Fair com Johnny Depp
Uma de suas capas para a Vanity Fair com Johnny Depp

Imagens para a história

A capa história da Rolling Stones com o casal Yoko e Lenon
A capa história da Rolling Stones com o casal Yoko e Lenon

Se os anos da “Rolling Stone” lhe permitiram o acesso ao universo das pop stars, ganhando fama com retratos que marcaram a década e tornaram a sua assinatura valiosa (ver destaques), a passagem para a “Vanity Fair”, em 1983, deu-lhe a entrada no universo das celebridades.

Editorial para a Vogue America fotografado por Annie, criado por Grace Coddington
Editorial para a Vogue America fotografado por Annie, criado por Grace Coddington

Os meios que uma poderosa revista de mundanidades possuía para grandes produções deslumbraram Leibovitz, que fez uso do seu arrojo em encenações de grande glamour, cada vez mais dispendiosas.

Whoopi Goldberg numa banheira cheia de leite
Whoopi Goldberg numa banheira cheia de leite

A identidade dos seus retratos funde-se na imagem de marca da “Vanity Fair”: Whoopi Goldberg, a emergir numa banheira cheia de leite; Isabella Rossellini e David Lynch, depois de “Blue Velvet”, num misterioso retrato de fundo azul-forte como um quadro de Matisse; Arnold Schwarzenegger, futuro governador da Califórnia, no topo de uma pista de esqui; Jack Nicholson, com os seus inseparáveis óculos escuros e em roupão de seda, a jogar golfe na sua casa; Isabel II, sem coroa, num retrato com fundo dramático, em Buckingham Palace; Nelson Mandela, de sorriso aberto; Hilary Clinton, durante a campanha; Bush e a sua equipa, na Casa Branca. Também Obama se fez fotografar por Annie Leibovitz e posou pela primeira vez em família pouco depois de se tornar Presidente dos EUA.

annie_leibovitz_photoespana

O retrato de Demi Moore, grávida de Bruce Willis, em nu integral e segurando a barriga, na capa da “Vanity Fair”, numa imagem profundamente controversa que rendeu à revista um milhão de exemplares vendidos, resume o impacto dos retratos de Leibovitz: “Tornei-me mais conhecida com aquela imagem do que com qualquer dos filmes em que participei.” Num tempo profundamente marcado pela cultura das celebridades, todos se eternizaram na câmara de Leibovitz, que com os retratos altamente encenados de depuração e intimidade devolve aos seus protagonistas uma imagem de imortalidade.

Rihanna para a Vogue
Rihanna para a Vogue

Nos últimos anos, nas megacampanhas para a marca Louis Vuitton, assinadas pela fotógrafa, onde, entre muitos outros, participaram Gorbachev, Catherine Deneuve, Francis Ford e Sophia Coppola, a própria Leibovitz não resistiu à encenação da sua mise en scène. Sentada no chão do estúdio, com a sua camisa preta, mocassins rasos, óculos rectangulares e a Leica pousada ao seu lado, olhando para cima – para o seu amigo bailarino Mikhail Baryshnikov, iluminado como um anjo -, ela torna-se objecto da sua fotografia. Nesta postura ambígua, mais do que nunca a fotógrafa do poder permite-se discretamente recriar-se como o maior ícone comercial captado pela sua máquina.

A foto que inicia e encerra do documentário The Vogue's Editor
A foto que inicia e encerra do documentário The Vogue’s Editor

Sontag e Leibovitz, um amor até ao fim

A fotógrafa e a intelectual conheceram-se em 1989, numa sessão organizada por Sontag, que pediu a Sharon Delano, editora da revista “Vanity Fair”, que lhe apresentasse Annie Leibovitz. A mestra dos cliques conta como ficou impressionada quando percebeu que a escritora e conceituada crítica de arte – autora do ensaio “On Photography” – a queria conhecer, a ela, a fotógrafa de mundaneidades, muito pouco dada a leituras.

Pouco tempo depois assumiram o seu amor homossexual. Susan, 16 anos mais velha, tornou-se uma forte influência no trabalho de Leibovitz, que iniciou com Sontag um ciclo de viagens pelo mundo. Apesar de nunca terem partilhado a mesma casa, estiveram juntas até ao fim dos dias da escritora (dezembro de 2004).

Na exposição “A Photographer’s Live, 1990-2005”, Annie Leibovitz incluiu as controversas fotografias da doença e da morte da companheira.

A foto de Sontag morta
A foto de Sontag morta

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s