PENSATA: DE CABRAL A CABRAL

“Nós, brasileiros, somos um povo em ser, impedido de sê-lo. Um povo mestiço na carne e no espírito, já que aqui a
mestiçagem jamais foi crime ou pecado. Nela fomos feitos e ainda continuamos nos fazendo. Essa massa de nativos viveu por séculos sem consciência de si… Assim foi até se definir como uma nova identidade étnico-nacional, a de brasileiros…” DARCY RIBEIRO. indio8490_1

Ontem em seu segundo show da Turnê Abraçaço, Caetano Veloso interrompeu o repertório da apresentação e deixou o Circo Voador em silencio como um sinal de protesto ao ocorrido na Aldeia Maracanã, cantou “Um Índio”.

Se você pegou um foguete ou chegou agora no Planeta Terra, tribos indígenas e simpatizantes da causa foram expulsos a força pelo Batalhão de Choque da PM, por conta de um liminar que prevê a demolição do prédio por conta da série de obras em torno do Estádio do Maracanã e os eventos Copa do Mundo e Olimpíadas. O Governo do Estado ainda anunciou que no local será construído um Museu Olímpico.

No carnaval de 2000, a Escola de Samba Imperatriz Leopoldinense falou sobre o descobrimento no Brasil e cantou “Foi seu Cabral que, descobriu o Brasil, dois meses depois do Carnaval”. Mas, eu te pergunto: Seu Cabral descobriu mesmo o Brasil ou se apropriou?

E 512 anos depois, outro Cabral, o Governador, repete a mesma atitude do português, “apagando” as raízes e a cultura de outros povos.  Sinceramente, começo a achar que essa etnia, só serve para dar fio condutor nas histórias criadas no Carnaval, que divertem e enchem os olhos dos gringos… Lembrando que o Sambódromo foi um espaço idealizado por Darcy Ribeiro para a exaltação da cultura popular.

O engraçado é que no nosso calendário existe o Dia do Índio? Pelo menos nas escolas de ensino fundamental a data ainda é comemorada pelas crianças, que sentem afeição por esse povo. Alguns disseram que os moradores da Aldeia Maracanã eram cosplay de índio, pois, tinham televisão, celular, tomavam cerveja… Valorizar sua cultura e tradição não significa viver na idade da pedra polida ou da pedra lascada.

Em tempos de sustentabilidade, o índio seria um grande educador, visto que apesar de ditos primitivos… Eles esbanjam conhecimento sobre a terra e sabem usar de maneira consciente os recursos naturais.

Em 1910, o Marechal Rondon inaugurou no prédio o Serviço de Proteção ao Índio (SPI), com o objetivo de cuidar e proteger os interesses dos povos originários do Brasil. Em 53, foi instalado no local, pelo antropólogo brasileiro Darcy Ribeiro, o primeiro Museu do Índio da América Latina. Darcy queria divulgar uma imagem correta, atualizada e VIVA, desprovida de preconceitos pela sociedade, despertando, deste modo, o interesse pela Cultura e pela Tradição Indígenas. Desde a transferência do Museu do Índio para o bairro de Botafogo, o prédio ficou abandonado por décadas (cerca de 30 anos).

Em 2006, o espaço, que estava abandonado pelas autoridades, foi retomado por um grupo formado por diversas etnias indígenas de todo o território nacional, com o intuito de preservá-lo e revitalizá-lo, visto que o espaço tem importância histórica.

E a lamentável cena da desapropriação do prédio, que virou um espetáculo midiático visto por TODO o mundo, só serviu mesmo para atestar que os índios não são NADA nessa sociedade brasileira. É como se fossem invisíveis aos olhos do mundo. “O índio é o novo mendigo”, disse a jornalista e poeta Érica Magni.

A antropóloga Renata Feital disse indignada “O fato é que o mestre Darcy Ribeiro, lá onde se encontra, deve estar muito triste ao perceber que todo seu trabalho foi em vão. O Primeiro Museu do Índio criado por ele vai ser posto abaixo. Eu não queria esse Museu que hoje está abandonado, mas, já deveriam ter olhado por ele bem antes. Hoje, o prédio histórico que foi o museu é uma “pedreira” no caminho do Sr. Sérgio Cabral e da FIFA que necessitam dos espaços livres para que as pessoas circulem. Foda-se o índio! Aliás, isso acontece há muito e muito tempo. Eu vi o ódio estampado nas falas das pessoas, em cada discurso emitido. Um ódio sem razão. Se oportunistas políticos pegam carona na causa nativa para se autopromoverem, isso é um outro problema, mas eu vejo algo pior que isso, já que tal prática se tornou um lugar comum na forma de fazer política brasileira. Eu vejo uma total negação da cultura indígena, que deveria ter seus valores preservados. Eu vejo um povo fadado ao esquecimento, desrespeitado em todos os sentidos, culpado por sua existência e ainda marcado pelo atraso brasileiro. Brancos incultos, ignorantes e colonizadores que ainda continuam a fincar suas bandeiras e a decidir sobre os destinos dos que, segundo eles, nunca chegarão à civilização… é muita mediocridade!”

E como diz a marchinha de carnaval “Índio quer apito, se não der o pau vai comer”, o índio ganhou foi muito gás de pimenta e paulada. Por conta disso o deputado Marcelo Freixo disse que vai entrar na justiça contra a truculência da polícia. O relações públicas da PM, digo, o comentarista Rodrigo Pimentel disse que os manifestantes estavam desacatando as autoridades. E o desacato ao cidadão minha gente? E o direito de manifestação? E a democracia?

indio8479_1

A cada vez que ouvir alguém cantar “Cantos das Três Raças”, música imortalizada por Clara Nunes e agora por Gaby Amarantos, que traz novamente essa cultura à tona, meus olhos se encherão d’água pensando em tudo o que o povo brasileiro passou e passará. Será que o progresso por si só deve ser encorajado sem nenhum propósito? Nossas memórias estão sendo descartadas… Um povo sem memórias NÃO É NADA!

E o que fica disse tudo é que o caso virou mais um espetáculo aos olhos da mídia e da sociedade que parou na hora do almoço para acompanhar o fato. E o índios ganharam um day spa do Governo do Estado por sua participação em mais esse gesto, exemplar, para um país que elege um Governador ditador; um Prefeito que vive num mundo paralelo (porque só ele enxerga as melhorias que diz); um preconceituoso como Marcos Feliciano para uma comissão de luta pelo direito das minorias; que acredita nos discursos ditadores de Bolsonaro; que aplaude o Rodrigo Pimentel soltando pérolas durante o telejornal global puxando sempre o saco das autoridades.

Nos próximos anos, os índios poderão ser vistos apenas no acervo do MAR, recém inaugurado na Praça Mauá, ou nos livros de história.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s